Foi-me dado a ler, há dias, um ensaio bastante bem conseguido acerca da forma como o jogo TES: Morrowind não quebrava a fourth wall mas lhe fazia “ very strange things … not so much breaking it as morphing it, moving it, twisting it, painting it purple and sitting on top of it laughing”*. Uma das razões  que causava esta plasticidade e interacção com o conceito de fourth wall era a percepção que um dos NPCs tinha com um conceito central à mística do jogo: CHIM.

CHIM é um conceito metafísico do universo de TES que se refere ao momento em que uma personagem sabe que o é. Ou seja, em que uma entidade sabe que o mundo em seu redor não existe e ela é, por consequência, irreal.  Isto levaria, normalmente, a que essa entidade deixasse de existir, fosse por se ver forçada a suicidar-se por saber da sua existência ser uma ilusão, fosse porque o simples facto de se aperceber da verdade do mundo a retirasse dele. O segredo para obter o estado de CHIM é juntar as duas proposições “Eu existo” e “Eu não existo” e a partir delas encontrar algo que não resulta numa anulação total da sua entidade.

CHIM, como nos é apresentado em Morrowind, é um conceito criado pelo deus Vivec, possivelmente o maior meta-NPC da história dos videojogos (mas uma vez, leiam o ensaio para descobrirem mais sobre isto). Em suma, o que nos é comunicado é que Vivec sabe que não passa de uma personagem fictícia num mundo fictício. Mas será que essa verdade causa a sua destruição?

Hell no.

Fãs de Matrix poderão estar a recordar neste momento uma certa citação sobre uma colher (que também é aludida no ensaio). Para quem não se lembra dela, aqui fica no seu original:

Spoon boy: Do not try and bend the spoon. That’s impossible. Instead… only try to realize the truth.
Neo: What truth?
Spoon boy: There is no spoon.
Neo: There is no spoon?
Spoon boy: Then you’ll see, that it is not the spoon that bends, it is only yourself.

O que poderá isto significar? Ainda que a metafísica que esta lição implica nos possa conduzir por caminhos tortuosos, o primeiro passo não é assim tão complicado: se nada existe, nem sequer nós mesmos, o que nos impede então de modelar essa imaterialidade conforme nos apeteça? Não há leis físicas para além daquelas que decidirmos manter activas nas nossas próprias mentes.

Isto são tudo ideias que estão contidas no ensaio, e que vos encorajo fortemente a explorar vocês mesmos (e a jogar o jogo se não o jogaram ainda). O que me interessa aqui focar é outra ideia que é mencionada mas não explorada: o poder das personagens sobre a mente do autor.

O que é uma personagem, qualquer uma, senão uma extensão do pensamento e imaginação do seu criador? Todas as personagens começam desta forma, como actores num filme que se desenrola nas nossas mentes. Nesta medida, conceptualmente, uma personagem não tem personalidade própria; tem sim qualidades, defeitos e particularidades que lhe emprestamos para lidarmos com ela e para entendermos o que vai ela fazer no seio dos universos imaginários que criamos.

Mas e se uma personagem começa a ganhar mais poder sobre o autor? E se uma personagem começa a construir uma personalidade por si mesma e começa a impôr a sua vontade sobre o rumo do mundo que o autor construiu? Será que atingiu CHIM?

Na minha opinião, não. Pelo menos, não ainda. Por mais que uma personagem ganhe poder sobre a mente do autor isto não significa necessariamente que essa personagem sabe que o é. Creio que qualquer bom autor concordará que as personagens ganham vida própria a dada altura, e para aqueles que gostam de planear as suas histórias elas podem tornar-se uma verdadeira chatice (claro que há o caso oposto: David Gemmell escrevia pegando nalgumas personagens já com personalidade própria e seguindo-as através dos seus mundos, “limitando-se” a anotar as acções que via e sobre as quais não tinha poder).  Mas isto não é CHIM. A personagem pode estar imbuída de muito poder sobre a mente do seu criador, mas isto advém, more often than not, de poder emprestado, isto é, poder adquirido pela afeição entre o artista e a sua obra (ou não fossem as personagens os “bebés” de cada um dos seus autores). Mas… e se a personagem atinge CHIM?

Posso revelar neste momento um detalhe particular: atingir CHIM no meu mundo (de Eos, apenas) é atingir a divindade, e qualquer personagem está apta a isso .  A minha imaginação torna-se o mundo do jogo e as entidades divinas tornam-se jogadores activos, ao contrário dos outros que, mesmo com personalidades próprias, acham que existem naquele contexto. Quererá isto dizer que elas têm tanto poder para afectar a forma como o meu universo vive quanto eu? Por alto, sim.

Mas tal como num videojogo, que podemos desligar, apagar e voltar a formatar, existe sempre uma constante na imaginação do autor: não pode apagar personagens, mas pode ignorá-las. Estes meus deuses, Norrowyn, Hlal, etc., não existem para lá das barreiras de Eos, que eu transponho todos os dias ao pensar em mil e uma coisas diferentes. Dentro de Eos eles têm tanto poder quanto eu; mas nunca mais. A imaginação do autor é a velocidade da luz de cada universo imaginado: não pode ser ultrapassada.

Se uma das vossas personagens atinge CHIM, então preparem-se (no caso dos escritores) para umas sessões de escrita por vezes complicada. Como se fossem colegas de casa, as personagens que atingem CHIM estão muitas vezes a fazer outras coisas e ignoram a forma como vão anotando a realidade que observam no vosso mundo.  Quando se intrometem, porém, podem mudar todo o rumo da história. Volto a repetir: personagens com CHIM têm tanto poder sobre a vossa imaginação quanto vocês próprios.

Como se podem livrar delas quando se tornam chatas? Não podem. De cada vez que entram no universo onde elas existem, elas estão lá, indeléveis e imóveis, a não ser que decidam terraplanar tudo o que ali construíram até então. O terreno de jogo passou a ser delas também. A opção que têm é criar outro terreno de jogo com regras diferentes e anexá-lo ao original, de forma a dificultar-lhes a influência delas sobre as vossas histórias. As que se portam bem podem manter-se activas no mundo original; as outras vão para o cantinho dos mal-comportados.

Quem tiver lido estas últimas linhas e estiver a achar que eu ainda a fumei algo esquisito, tente meditar sobre o que eu disse. Vão escrever. Vão criar personagens. Deixem-nas ganhar consciência própria. Quando uma delas atingir CHIM, venham aqui deixar-me um comentário a explicar a vossa experiência.

*Kate, 2010. Para quem domina o Inglês, poderão encontrar todo o ensaio aqui: http://fallingawkwardly.wordpress.com/2010/08/29/the-metaphysics-of-morrowind-part-1/

sendo que o conceito de CHIM é abordado com mais detalhe na 3ª parte do documento.

Advertisements