Como não sou de mandar as chamadas indirectas ou boquinhas veladas, meto já as coisas preto no branco: as ideias que vou expôr neste post, que surge na sequência de algumas conversas que tenho tido com amigos meus, foram despoletadas pelo livro Um Cappuccino Vermelho, de Joel Gomes, que apesar do que vai ser dito a seguir estimo em conhecer. Convém também dizer queme vou referir às edições de autor no geral, pelo que não se considerem as minhas palavras como um ataque directo ao livro.
As edições de autor são cada vez mais comuns quer em Portugal quer no estrangeiro. Torna-se cada vez mais fácil colocar uma obra à disposição do público por meios próprios, ao invés de tentar a sorte no circuito comercial estabelecido das editoras. Porquê? Mais liberdade, mais economia, visto que as escolhas estão todas a cargo do autor e é para o mesmo autor que reverte o lucro integral da obra.

Há, infelizmente, algo que as edições de autor dificilmente conseguem comprar: a qualidade da revisão e do input de uma editora. Há uma razão fundamental para obras serem recusadas, aparte de pertencerem aos famigerados nichos (Sci-Fi, Steampunk, Fantasia) que ninguém publica neste país. Essa razão é, tão simplesmente: o livro não é bom o suficiente. Pode pecar por conteúdo, com uma história cliché, mal desenvolvida; pode pecar em apresentação, com uma linguagem pouco elaborada ou demasiado rebuscada, uma inconsistência de ritmo (algo de que o Cappuccino é na minha opinião um culpado); pode enfim pecar de mil e uma maneiras diferentes. Isto é, claro, a regra geral, e o que em teoria acontece quando um manuscrito passa pelas mãos de um bom editor. Se calhar nas mãos de um mau editor, bem…Twilight, 50 Shades of Grey, Eragon…Need I say more?

But I digress. A questão fundamental aqui é esta: sem o aconselhamento e palavras de um bom (ou até médio) editor, um autor não sabe bem o que está a fazer, e não tem a noção das suas falhas. Este é o Problema Número 1.

Está claro que o problema pode ser remediado. É possível que conheçamos pessoas que, embora não trabalhem na área da Edição, sejam beta-readers exigentes e nos possam ajudar a esmifrar as falhas do livro e a corrigi-las. Infelizmente em Portugal qualquer pato-bravo que assenta umas frases no papel e as mostra aos amigos e família recebe, em vez de uma crítica honesta, umas palmadas nas costas e umas ocas palavras de encorajamento. Isto, aliado a uns trocos próprios ou dos papás, resulta em verdadeiras tragédias de publicação como é o caso com o livro Crime no Hotel de Tiago Moura (que publicado numa vanity como a Chiado Editora conta como edição de autor para mim) , um rapaz a quem alguma alminha desnaturada fez o grande desfavor de lhe dizer que escrevia bem. Mas ainda bem que referi este caso, porque também nos conduz ao Problema Número 2: A falta de brio.

No caso gritante de Tiago Moura, e em muito menor medida no caso de Joel Gomes (no qual me custa mais chamar à razão porque o próprio admite que o livro tem algumas falhas óbvias), há uma falta de brio que é sintomática do nosso espírito perante o trabalho. Fez-se algo em grande, tudo muito certo, acabar um livro não é toda a gente que faz. Optou-se pela edição de autor e pediu-se a uns amigos para lerem. O público aplaude e pede mais. Infelizmente o público no geral é um péssimo avaliador da qualidade seja do que seja. E quando de entre amigos e conhecidos se ergue uma vozinha que diz “devias mudar isto” ou “isto é uma falha, corrige”, tem-se a mania de contrapôr com “Mas quem já leu gostou desse bocado”. E daí, que interessa isso? Cada opinião deve ser examinada e tido em conta individualmente. Não interessa se 30 mil pessoas gostam do que está escrito, se uma diz que há uma falha vai-se rever a dita cuja. Se for mesmo falha corrige-se, se for só implicância do crítico passa-se à frente. Isto aliado à nossa costumária atitude de “meia-bola e força” e de “Não há problema que ninguém nota/quer saber”, gera atitudes que não deveriam ser aceites.

Falando particularmente sobre o livro do Joel, o que me chateia no caso dele é que publicou o livro estando ciente de que ele tinha falhas. É uma atitude danosa, na minha opinião. Tiago Moura por certo foi banhado em elogios, dada a sua jovem idade, e ninguém teve a coragem de o tirar do seu pedestal e lhe dizer que o livro dele não presta, que é lixo. Portanto que outra maneira teria ele de saber, ofuscado pela sua própria glória? Mas no caso do Joel ele sabia, e publicou à mesma. É mau, mas enfim. Cada um faz o que quer com o dinheiro, e se uns publicam os outros compram, nada contra. Sou apenas contra vender produtos defeituosos. Se não temos consciência do defeito a culpa não é imediatamente nossa, mas se temos, então a culpa é só nossa. E nesse aspecto há muita, muita mais gente com muitas e mais gravosas culpas no cartório que o Joel.

EDIT: Antes que as minhas palavras possam ser mal-interpretadas: o meu uso das palavras “pato-bravo” é uma generalidade e não é lançado directamente contra  Joel Gomes, mas antes contra muitos papalvos e saloios que juntam duas frases e se acham escritores.

 

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