Rápido: para que serve um concurso literário? Para premiar novos e desconhecidos talentos que por aí andem, escondidos nos cantos e envergonhados de trazer ao de cima os seus fenomenais trabalhos?

Se pensaste assim: estás errado. Pelo menos em relação a Portugal.

You see, há dois grandes males a afectarem os concursos literários portugueses. São aliás dois (senão OS dois) grandes males que permeiam todo o funcionamento da nossa sociedade: Cunhas & Elitismo. Poderia dizer-se, e muitas vezes nos queixamos, de que estas características são os empecilhos do nosso sistema. Convençamo-nos: são parte do sistema, tal como ele está construído. Mas antes que eu me desvie demasiado, os concursos.

Enquanto que lá fora a generalidade dos concursos tende a galardoar a originalidade de temas e a qualidade de escrita quando os concursos são de, digamos assim, tema aberto, a verdade é que há milhentos concursos a ocorrer, sobre os mais variados géneros e temáticas. Logo, um autor estrangeiro de, digamos, Ficção Científica, não tem de se limitar a jogar no mesmo campo que contistas de Fantasia, ou apaixonados do Romance Histórico, etc. Cá, dada a reduzida dimensão do nosso espaço cultural, os concursos literários costumam ou ser tão circunscritos a um tema que se torna difícil participar neles, de tão apertada que nos fica a imaginação; ou, por outro lado, são concursos gerais. É aquilo que gostamos, enquanto povo, de fazer na cozinha, a ser aplicado à Literatura: abram a panela e enfiem tudo lá para dentro, a ver o que é que daqui sai. Não costuma sair coisa boa.

PRIMEIRO, e aproveitando o seguimento da analogia, o concurso está desde logo decidido se algum dos participantes tem um parente ou um amigo da família no júri. É a boa e velha moda do “tachinho”. Eça chamava-lhe “panelinha”, esse aglomerar de boas vontades chovidas sobre um grupo selecto. Lembram-se do concurso da Coca-Cola há uns anos? Vi contos incríveis a participar. Os vencedores eram uma lástima. Porquê? “Tachinho”, quase seguramente.

MAS, não queiramos implicar as cunhas em tudo. Porque nem todos os júris têm amigos ou parentes a concorrer. Então como desabaratar logo metade dos participantes? Uma boa e velha demonstração de elitismo literário, pois então! Entendam, os organizadores dos concursos literários em Portugal têm culpas no mesmo exacto cartório que as grandes editoras: não querem géneros novos, Deus e os santinhos nos livrem, não querem cá experiências com a língua, experiências temáticas, em suma, nada que seja novo na escrita. Querem frases rebuscadas (“Ele até sabe o que é o esternocleidomastóideu!”), querem palavrões e verborreio, querem as grandes temáticas, a Morte, a Vida, a Liberdade, a Pátria, o Homem!…O que quer dizer que se escreveram um brilhante conto de Fantasia, ou Steampunk, ou Ficção Científica, podem tirar o cavalinho da chuva. Num concurso de tema livre, em Portugal, nunca nada disso há de triunfar.

A não ser, claro, que tenham um tio, primo, enteado, avô, ou amigo dos papás no júri. E mesmo aí, devem ter de fazer um choradinho.

Advertisements